Polilaminina: O Que É, Para Que Serve e Como Funciona no Corpo | Dra. Tatiana Sampaio

Ciência Brasileira · Medicina Regenerativa · Neurologia

Polilaminina: O Que É, Para Que Serve e Como Funciona no Corpo

A proteína desenvolvida na UFRJ que está fazendo o que a medicina considerava impossível — e devolvendo movimento a pessoas tetraplégicas no Brasil.

Atualizado em fevereiro de 2026 · Leitura: ~12 minutos

Uma descoberta científica feita em uma universidade pública brasileira está reescrevendo o que a medicina acreditava ser irreversível. A polilaminina — desenvolvida ao longo de quase três décadas pela pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio na UFRJ — é uma proteína capaz de estimular a regeneração de neurônios lesionados e reconectar a medula espinhal, devolvendo movimento e sensibilidade a pessoas diagnosticadas com paraplegia e tetraplegia.

Neste artigo, você vai entender em profundidade o que é a polilaminina, como ela funciona no organismo, quem é a cientista por trás dessa descoberta, quais são os resultados já obtidos e confirmados com pacientes reais — e o que o futuro desse tratamento promete.

~25anos de pesquisa na UFRJ

6/8pacientes recuperaram movimentos

40+publicações científicas internacionais

2026Anvisa aprova fase clínica em humanos

O Que É a Polilaminina?

A polilaminina é uma forma polimerizada da proteína laminina — uma molécula naturalmente presente na membrana basal dos tecidos do corpo humano, e especialmente abundante durante o desenvolvimento embrionário. No sistema nervoso, a laminina desempenha um papel vital: ela serve como “trilho” para o crescimento dos axônios, as estruturas filamentosas que transmitem impulsos elétricos entre os neurônios.

O problema é que, em adultos, a presença dessa proteína no sistema nervoso central é muito limitada — e em regiões lesionadas, praticamente inexistente. É exatamente aí que entra a polilaminina. A pesquisadora Tatiana Sampaio e sua equipe conseguiram recriar em laboratório a organização tridimensional natural da laminina, produzindo uma versão polimerizada, mais estável e biologicamente ativa — chamada de polilaminina —, obtida a partir de proteínas extraídas da placenta humana (um tecido normalmente descartado após o parto e rico nessa molécula).

“A polilaminina, que foi efetivamente o que a gente descobriu, era uma forma melhorada da laminina, que não era suficiente na lesão.”— Dra. Tatiana Coelho de Sampaio, em entrevista à CBN Rio (outubro de 2025)

Em termos simples: enquanto a laminina isolada não era poderosa o suficiente para superar as barreiras de uma lesão medular, sua forma polimerizada — a polilaminina — demonstrou ser capaz de criar um ambiente biológico favorável à regeneração neural, estimulando o crescimento de novos axônios mesmo em regiões de lesão completa.

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Quem É a Dra. Tatiana Sampaio?

TS

Pesquisadora · UFRJ · Instituto de Ciências Biomédicas

Dra. Tatiana Coelho de Sampaio

Bióloga carioca, 59 anos, apaixonada pela vida e pela ciência desde a infância. Fez toda sua formação — graduação, mestrado e doutorado — na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Aos 27 anos, tornou-se professora da UFRJ. Realizou estágios de pós-doutorado em imunoquímica na University of Illinois (EUA) e pesquisas sobre inibidores de angiogênese na University of Erlangen-Nuremberg (Alemanha).

UFRJ2 Patentes40+ PublicaçõesParceira CristáliaCellen (Células-Tronco)

Tatiana Sampaio chefia o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ à frente de uma equipe de 15 pessoas. Sua trajetória é marcada por uma característica rara: a combinação de rigor científico com comprometimento humano profundo. Ela não apenas publica artigos — ela mantém contato com os pacientes que tratou e acompanha suas evoluções pessoalmente.

Fora do laboratório, Tatiana é figura ativa da boemia carioca, apaixonada por samba e pela vida nas ruas do Rio. “Eu gosto de rua, de gente”, define ela mesma. Mãe de dois filhos e mãe acolhedora de uma jovem órfã, ela dorme apenas seis horas por noite — dedicando o restante do tempo à ciência que transforma vidas.

💡 Contexto Importante

A pesquisa contou com financiamento público de agências como FAPERJ, CAPES e CNPq. Em 2023, duas patentes registradas pela equipe geraram R$ 3 milhões em royalties para a UFRJ. A trajetória, porém, também teve percalços: cortes de verba chegaram a ameaçar a continuidade da pesquisa, e a patente internacional chegou a ser perdida por falta de recursos — levando a própria pesquisadora a colocar dinheiro do próprio bolso para manter a patente nacional ativa.

Atualmente, o desenvolvimento do medicamento conta com parceria do laboratório farmacêutico Cristália, que estima investimento de R$ 28 milhões para levar a polilaminina às farmácias.

A Linha do Tempo da Descoberta

1998

Início do projeto no Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ. Objetivo inicial: compreender como proteínas específicas poderiam estimular a regeneração do sistema nervoso central.

Anos 2000

Desenvolvimento da polilaminina como molécula a partir de proteínas extraídas da placenta humana. Primeiros testes laboratoriais e pré-clínicos.

2018–2023

Aplicação experimental em primeiros pacientes humanos. Bruno Drummond de Freitas recebe o tratamento e torna-se o caso mais emblemático. Publicação de resultados como preprint no medRxiv em fevereiro de 2024.

2023

R$ 3 milhões em royalties gerados pelas patentes, distribuídos entre inventores e a UFRJ.

Janeiro 2026

Marco histórico: a Anvisa autoriza o início da Fase 1 dos ensaios clínicos oficiais em humanos, voltada à avaliação de segurança com cinco voluntários.

Como a Polilaminina Funciona no Corpo?

A polilaminina age diretamente no ambiente celular da medula espinhal lesionada, interagindo com receptores de superfície das células nervosas — principalmente as integrinas — e desencadeando uma cascata de reações que favorecem a sobrevivência e o crescimento neuronal. Sua ação é multifacetada:

  • Indução de crescimento axonal: estimula os neurônios a criarem e prolongarem seus axônios, reconstruindo as “vias de comunicação” interrompidas pela lesão.
  • Criação de ambiente regenerativo: forma uma matriz biológica favorável ao crescimento celular na região lesionada, superando a cicatriz glial que normalmente bloqueia a regeneração.
  • Neuroproteção: protege os neurônios remanescentes do estresse oxidativo e da morte celular secundária à lesão.
  • Ativação de vias de sobrevivência: sinalização pelas vias PI3K/Akt e MAPK, fundamentais para a manutenção e função neuronal.
  • Estimulação da contração muscular voluntária: ao reconectar os circuitos nervosos, permite que impulsos motores voltem a alcançar a musculatura abaixo do nível da lesão.

A aplicação é feita por injeção direta na área lesionada — intraparenquimatosa —, preferencialmente dentro de um intervalo de 24 a 72 horas após o trauma (janela terapêutica ideal de até 90 dias). Quanto mais cedo aplicada, maiores as chances de recuperação funcional. A proteína não precisa de imunossupressores nem de manipulações complexas: por não ser um organismo vivo (diferente das células-tronco), o risco de rejeição é significativamente menor.

🔬 Origem: A Placenta Humana

A laminina utilizada como matéria-prima é extraída da placenta humana — um órgão normalmente descartado após o parto e naturalmente rico nessa proteína. Após extração e processamento laboratorial, a laminina é transformada em sua forma polimerizada (polilaminina), conferindo maior estabilidade, potência biológica e praticidade de uso clínico. A substância pode ser fabricada, armazenada em freezer e utilizada rapidamente em emergências.

Resultados Confirmados: Pacientes Que Voltaram a se Mover

O estudo clínico inicial com polilaminina incluiu oito pacientes com lesão medular completa e aguda. Cada participante recebeu uma única injeção intraparenquimatosa de polilaminina dentro de um intervalo médio de 2 a 3 dias após o trauma. Os resultados, publicados como preprint no medRxiv em fevereiro de 2024, foram notáveis: dos seis sobreviventes, todos demonstraram algum grau de contração voluntária abaixo do nível da lesão — resultado considerado incomum para esse tipo de quadro clínico pela literatura médica.

Caso Confirmado — Resultado Emblemático

Bruno Drummond de Freitas, 31 anos

Tetraplégico após acidente de carro em 2018 · Bancário · São Paulo

Após um acidente automobilístico em abril de 2018, Bruno foi diagnosticado com tetraplegia — paralisia completa do pescoço para baixo. Recebeu o tratamento com polilaminina em até 24 horas após a lesão, dentro da janela terapêutica ideal. O primeiro sinal de melhora veio pelo movimento de um dedo do pé — algo que sua equipe médica festejou, mas que ele mesmo inicialmente não compreendia a importância. A partir daí, a recuperação foi progressiva. Hoje, Bruno tem todos os movimentos do corpo recuperados. Em registros recentes, foi filmado levantando 20 kg na academia.

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Caso Confirmado — Recuperação Parcial

Diogo Barros Brollo, 35 anos

Paraplégico · Recuperação de membros inferiores

Diogo ficou paraplégico após lesão grave na medula espinhal. Após receber o tratamento com polilaminina, conseguiu recuperar movimentos nos membros inferiores, incluindo o movimento do pé — um resultado que representa independência significativa no cotidiano e sinaliza a capacidade de reconexão dos circuitos neurais lesionados.

Caso Recente — Em Acompanhamento

Luiz Otávio Santos Nunez, 19 anos

Tetraplégico por ferimento de arma de fogo em outubro de 2025

Em 2025, o jovem de 19 anos ficou tetraplégico após um acidente com arma de fogo. Seu caso abriu um novo capítulo na compreensão do potencial da polilaminina, sendo acompanhado de perto pela equipe de pesquisa e o laboratório Cristália como parte dos estudos de segurança pós-aplicação.

“Quando percebi que não sentia nada do pescoço para baixo, eu fiquei muito triste, só queria dormir. Até um dia que acordei e vi que um dedão estava mexendo. Foi o que mudou minha vida.”— Bruno Drummond de Freitas, primeiro tetraplégico a recuperar todos os movimentos com polilaminina

Situação Atual: Anvisa, Ensaios Clínicos e Decisões Judiciais

Em janeiro de 2026, a Anvisa autorizou o início da Fase 1 dos ensaios clínicos oficiais com polilaminina — uma etapa dedicada exclusivamente à avaliação de segurança do tratamento. A aprovação permite que cinco voluntários recebam a proteína diretamente na área lesionada, sob protocolo clínico rigoroso. Este é um marco histórico: significa que a substância passou pela avaliação regulatória básica e tem aval para ser testada formalmente em seres humanos no Brasil.

Paralelamente aos ensaios oficiais, a polilaminina tem chegado a outros pacientes por meio de decisões judiciais. Ao perceberem os resultados divulgados na mídia, famílias de pacientes com lesão medular recorreram ao Judiciário para obter acesso ao tratamento experimental. Até o momento, o laboratório Cristália recebeu 37 determinações judiciais e realizou 22 aplicações fora do protocolo clínico.

⚠️ Informação Importante sobre Segurança

Em 2026, três pacientes que receberam polilaminina por decisão judicial — fora do protocolo clínico oficial — vieram a óbito. O laboratório Cristália, fabricante do produto, declarou que as mortes decorreram de complicações clínicas graves preexistentes, sem relação direta com o medicamento. O neurocirurgião responsável pelos procedimentos corroborou essa avaliação.

Este contexto reforça a importância de que a polilaminina seja aplicada dentro de protocolos médicos supervisionados, em pacientes adequadamente selecionados. A fase clínica oficial existe exatamente para estabelecer com rigor científico os parâmetros de segurança e eficácia do tratamento.

O Futuro da Polilaminina: Perspectivas e Desafios

O caminho até que a polilaminina esteja disponível nas farmácias ainda é longo. O processo regulatório completo envolve fases clínicas progressivas (Fase 1, 2 e 3), cada uma com objetivos distintos de avaliação de segurança e eficácia, podendo levar anos. O investimento estimado pelo Cristália para concluir esse processo é de R$ 28 milhões.

Para lesões crônicas — casos em que a lesão aconteceu há meses ou anos — a Dra. Tatiana reconhece que o tratamento é possível, porém mais desafiador: é preciso vencer a cicatriz glial que se forma na região lesionada ao longo do tempo. Pesquisas nessa frente continuam em andamento.

Além da aplicação em humanos, a pesquisadora também atua como sócia da Cellen, empresa focada em medicina veterinária que aplica conceitos de regeneração no tratamento de lesões em animais — o que também fornece dados científicos adicionais relevantes.

Internacionalmente, a descoberta brasileira tem gerado repercussão crescente. Uma campanha nas redes sociais com a hashtag #NobelParaTatiana foi lançada em fevereiro de 2026, mobilizando brasileiros e membros da academia científica para indicar a pesquisadora ao Prêmio Nobel de Medicina — o maior reconhecimento científico do mundo.

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Perguntas Frequentes sobre Polilaminina

Ainda não. Atualmente, o tratamento está em fase experimental e só pode ser administrado dentro do protocolo clínico aprovado pela Anvisa (com critérios rigorosos de seleção) ou por decisão judicial. A indicação mais favorável é para lesões agudas, tratadas em até 90 dias após o trauma. Para lesões crônicas, a pesquisa ainda está em desenvolvimento. A Dra. Tatiana esclarece que cada paciente tem uma evolução única, e o acompanhamento pós-tratamento é fundamental.

Sim, e de forma significativa. A polilaminina é uma proteína — não um organismo vivo —, o que reduz consideravelmente o risco de rejeição e elimina a necessidade de imunossupressores. Além disso, pode ser fabricada, armazenada em freezer e utilizada rapidamente em emergências, sem as complexidades de manipulação celular. As células-tronco e a polilaminina são abordagens complementares, não concorrentes.

A aplicação é mais eficaz entre 24 e 72 horas após o trauma medular. A janela terapêutica considerada viável se estende até 90 dias após a lesão. Quanto mais cedo for aplicada, maiores as chances de recuperação funcional significativa, pois há menos morte neuronal secundária e menos formação de cicatriz glial.

Sim, versões do peptídeo são comercializadas em farmácias de manipulação e como suplemento nootrópico para suporte à saúde cerebral e neurológica. No entanto, é importante distinguir: o suplemento alimentar é diferente do medicamento experimental para lesão medular. Para uso terapêutico no contexto de lesões medulares, a substância está sob protocolo clínico controlado e não pode ser simplesmente comprada e autoadministrada. Qualquer uso deve ser orientado por um médico.

Não há uma data definida. O processo regulatório completo — Fases 1, 2 e 3 dos ensaios clínicos — pode levar vários anos. A Fase 1, aprovada pela Anvisa em janeiro de 2026, é apenas o primeiro passo. O laboratório Cristália estima que o investimento total para concluir o processo e comercializar o produto gira em torno de R$ 28 milhões.

Sim. A pesquisadora possui mais de 40 publicações científicas em periódicos internacionais e duas patentes registradas. Os resultados dos primeiros pacientes foram publicados como preprint no medRxiv em 2024. Em 2026, uma campanha global iniciou a mobilização para indicar a Dra. Tatiana ao Prêmio Nobel de Medicina, reconhecendo o potencial transformador de sua descoberta para a humanidade.

Todo medicamento tem riscos, e a polilaminina não é exceção. Como proteína sintética derivada da laminina, seu perfil de segurança pré-clínico é favorável e o risco de rejeição é baixo. Contudo, a Fase 1 dos ensaios clínicos está sendo realizada exatamente para avaliar a segurança em humanos com rigor científico. Casos de morte registrados em 2026 ocorreram em pacientes com condições clínicas graves preexistentes e fora do protocolo oficial, sendo que o laboratório descartou relação direta com o medicamento.

Uma Descoberta Que Pertence ao Brasil — e ao Mundo

A polilaminina não é apenas um avanço científico. É a materialização de décadas de perseverança de uma cientista brasileira que trabalhou em silêncio, com recursos limitados, em uma universidade pública — e mudou o que a medicina acreditava ser permanente.

Os resultados já obtidos são suficientes para transformar vidas e reacender esperanças. Bruno Drummond levantando 20 kg na academia; Diogo Brollo movendo o pé; Luiz Otávio em acompanhamento — cada caso é a tradução humana de anos de laboratório.

O caminho até a disponibilização ampla do tratamento ainda é longo, mas a direção é clara. E ela aponta, orgulhosamente, para uma universidade pública no Rio de Janeiro — e para a determinação de uma mulher que preferiu a ciência à fama, e que, de alguma forma, conseguiu as duas.

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